Timidez pode ser fobia social - Por Thais Martins
Afobia social é considerada um dos transtornos mentais mais prevalentes na população em geral.
De acordo com estimativas do Hospital das Clínicas, da Fa- culdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a doença atinge mais de um
milhão de pessoas somente no Estado de São Paulo. Segundo o Ma- nual Diagnóstico e Estatístico de Trans- tornos Mentais (DSM-IV-TR) (APA, 2002),
a fobia social é caracterizada por um medo acentuado e persistente de uma ou mais situações sociais ou de desempenho. A pessoa teme agir de um modo
ou mostrar sintomas de ansieda- de que lhe sejam humilhantes e emba- raçosos, e a exposição à situação social temida provoca uma resposta de ansiedade
intensa que pode chegar a um ata- que de pânico. A pessoa geralmente evi- ta essas situações ou as suporta com in- tenso sofrimento. Assim, a fobia social
acarreta em interferência nas rotinas de trabalho, acadêmicas e sociais.
A fobia social constitui um distúrbio de ansieda- de, tal como a síndrome do pânico, a ansiedade gene- ralizada e o
transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Mas diferente da síndrome do pânico, cujos portado- res enclausuram-se em casa
com medo de sentirem-se mal fora dela, a fobia social causa enorme apreen- são ao simples convívio público. Estar diante de outra pessoa
é motivo de pavor, já que o fóbico social teme ser observado e avaliado. A doença, no entanto, não deve ser confundida com a timidez comum, pois a
pessoa não apresenta somente vergonha, mas verda- deiros empecilhos no momento de se relacionar com outras, como suores, brancos de memória e até
taquicardia.
Segundo Gustavo J. Fonseca D’El Rey, psicólogo, co- ordenador e pesquisador do Programa de Fobia Social do Centro de Pesquisas e Tratamento de
Transtornos de Ansiedade – São Paulo-SP, a fobia social pode ser definida como medo e desconforto excessivo em uma ou mais situações sociais ou de
desempenho, nas quais a pessoa sente-se observada e julgada negativamente. Os princi- pais fatores desencadeadores da doença são temor de cometer
erros, educação muito rígida, falta de habilida- des sociais, entre outros.
Segundo o psicólogo Gustavo D’El Rey, a prevalência da fobia social pode diminuir com o enve- lhecimento.
Para a população geral ela está em torno de 14% e na terceira idade gira em torno de 9%.
Mesmo que os estudos apontem essa queda com o decorrer dos anos, foi na terceira idade que Beatriz de Almeida* se viu com fobia social.
Logo após a morte de seu marido, o sofrimento foi se acentuando e mes- mo com o transcorrer dos meses ela continuava apre- sentando comportamento semelhante ao
de um mês após o falecimento dele. Não queria sair de casa e não podia nem se imaginar conversando com as pes- soas, pois era acometida por enorme desespero nas
situações mais corriqueiras de convívio social. Um dia, um de seus filhos leu uma matéria que abordava a depressão e a fobia social e percebeu que Beatriz se
encaixava em tudo o que a matéria relatava. Ao procurar ajuda psiquiátrica, soube que estava com de- pressão ansiosa e fobia social.
Durante o tempo em que conviveu com a doença, o único lugar onde se sentia segura era quando estava sozinha em sua casa e, por esse motivo,
chegou a nomear a doença como “síndrome dos tijolos”. Com o tratamento, Beatriz pôde voltar à vida social, rece- ber pessoas em casa e conviver normalmente.
“Só depois de seis meses de tratamento pude receber pesso- as em minha casa, pois antes eram todas mal-vindas, e demorou um ano para que eu pudesse sair de casa
e não me sentir oprimida na rua e nervosa ao ter que conversar com as pessoas”, relembra.
A fobia social não difere em sua apresentação clí- nica nas pessoas com mais idade. Porém, o psicólogo Gustavo D’El Rey explica que as pessoas
idosas têm uma maior dificuldade em relatar sintomas fóbicos so- ciais, por acreditarem ser apenas timidez. “Essas pes- soas estão em maior risco
para desenvolver depres- são secundária a fobia social, embora esse risco exis- ta para todas as idades”, explica.
O tratamento também costuma ser similar em to- das as faixas etárias. Segundo o psicólogo, a terapia cognitivo-comportamental e a
farmacoterapia são os tratamentos de escolha nos casos de fobia social. Em relação à terapia cognitivo-comportamental da fobia social,
as principais técnicas que vêm sendo pesquisadas são a exposição (que requer que o paciente imagine ou confronte realmente os estímulos temidos),
reestruturação cognitiva (consiste em uma série de in- tervenções nas quais os pacientes são ensinados a iden- tificar os pensamentos negativos e
corrigir os conteú- dos distorcidos), técnicas de relaxamento (ajudam o pa- ciente a controlar sintomas fisiológicos antes ou duran- te os eventos
temidos) e treino de habilidades sociais. O mais importante, segundo Beatriz, é estar atento aos pequenos sinais de desconforto no convívio público.
“Quanto mais cedo a pessoa procurar tratamento, mais rápido irá conseguir retomar a sua vida e seus afaze-res”, conta ela. *Beatriz de Almeida – nome fictício.
Dr. Gustavo D’El Rey