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Idade Tecnológica - Por Nina Rahe

Durante muito tempo, a tecnologia foi vista como parte do mundo dos jovens e imaginar uma pessoa com mais idade utilizando aparatos tecnológicos ou capaz de compreender o funcionamento de tais apa- relhos era, no mínimo, inusitado. Faz algum tempo, no entanto, que esse quadro está ultrapassado e cada vez mais essas pessoas buscam obter acesso aos re- cursos tecnológicos. De acordo com levantamento de janeiro de 2002 do Ibope eRatings, 1,5% dos 6,3 mi- lhões de internautas domésticos brasileiros têm mais de 65 anos e os internautas da terceira idade perma- necem, em média, cinco horas e 58 minutos por mês conectados à internet. Esse índice é superior ao registrado na faixa etária de dois a 11 anos, em que os usuários passam, em média, três horas e 26 minutos conectados ao mês.

Para a psicóloga Amanda Spinicci, a inserção da pessoa com mais idade no mundo tecnológico acon- tece pela necessidade de “sentir-se parte atuante de toda a sociedade e da globalização”. Ela conta que muitos reclamam da falta de tempo dos filhos e netos, que não fazem visitas nem efetuam ligações. O que acontece é que essas gerações cresceram na era tecnológica, na qual a comunicação ocorre através da internet (por e-mail, MSN, Orkut etc.). “Inseridos na tecnologia, eles se comunicam com a família através desses mecanismos e não se sentem mais isolados.”

Foi o que aconteceu com Anésia Maria da Rocha Ciambra, de 68 anos, que aderiu à tecnologia, princi- palmente, por medo de não poder mais conversar com as pessoas. “Todos os meus netos falavam muito naquela linguagem de computador e eu não en- tendia nada, termos como download, loading etc. Então, percebi que, se eu não aprendesse, dali a pouco eu ficaria tão fora do contexto que não con- seguiria conversar nem com meus netos, nem com ninguém”, explica.

O primeiro contato que Anésia teve com a tecnologia moderna foi ao conhecer o celular. Embora nunca tivesse sentido falta de um telefo- ne portátil, ela percebeu que o pequeno aparelho não servia apenas para fazer telefonemas, mas apresentava funções como agenda, calendário, despertador. Então adquiriu um celular mas, no início, não conseguia entender como funcionava. Ela achava que era preciso economizar bateria e o mantinha quase todo tempo desligado. Também não compreendia o sistema de créditos do celular, que era preciso recarregá-los para efetuar as liga- ções. “Fiquei nervosíssima. Comecei pelo básico (ligar e desligar) e aos poucos meu neto de 10 anos me ensinou as funções todas. Hoje não pas- so sem.”

A psicóloga Amanda explica que são muitas as dificuldades para a inserção nesse “novo mundo”. “Não adianta dar instruções soltas para quem nunca viu ou lidou com determinado aparelho. Tem que ter uma didática apropriada e professores especializados, que devem ser claros e objetivos.”

No caso de Anésia, a falta de tais professores, especializados e com paciência, também foi uma dificuldade. Auxiliada pela família, o que teve fo- ram instruções soltas no momento de aprender a utilizar o computador. Depois de comentar com os filhos que se sentia fora do contexto e que tinha vontade de aprender, eles fizeram uma surpresa: apareceram em sua casa com um computador de presente. “Eles largaram lá aquela máquina, ensi- naram-me apenas a ligar e desligar e foram embora. Eu quase arranquei todos os meus cabelos, passei noites sem dormir porque me via na obri- gação de aprender aquelas coisas complicadíssimas. Queria utilizar e telefonava sem parar para os netos para que eles me explicassem por telefone.”

Estudos

Em artigo publicado pelo professor da Unicamp José Armando Valente, intitulado “Aprendizagem continuada ao longo da vida: o exemplo da terceira idade”, encontramos que a aprendizagem na terceira idade é centrada na resolução de problemas e na superação de desafios impostos pelo próprio indivíduo: um aprendizado construído e não simples- mente memorizado.

Embora as dificuldades de inserção das pessoas com mais idade no mundo tecnológico sejam muitas, os resultados são espetaculares. Para a psicóloga, os benefícios trazidos são os mesmos das outras faixas etárias, como comunicação fácil, rápida e barata; acesso a conteúdos mundiais; facilidade de compras e pagamentos etc. “O princi- pal é sempre inserir esse grupo nas atualidades, no mundo e na vida”, argumenta a psicóloga.

Anésia conta que o que a fez superar os pro- blemas foi sempre a vontade de aprender e, hoje, ela sente que todas as suas dúvidas a respeito de computador ou celular estão sanadas, mas os desafios ainda continuam: “ Escuto agora as pes- soas falarem em pen drive, mp3 e não tenho a menor idéia do que sejam, mas também quero desfrutar dessas tecnologias”, adianta.

Anésia Maria da Rocha Ciambra

     
 

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